Crítica | Coyote Vs. Acme

“Existe alguém no mundo que se importa com o que acontece com o Coyote?”

Coyote vs. Acme traz uma história de bastidores que vão ainda mais além que as decisões corporativas da Warner, esse projeto que surgiu o conceito através de um artigo de 1990 da revista The New Yorker, escrito por Ian Frazier que se baseou em personagens e elementos dos Looney Tunes.

A história do projeto foi concebida por James Gunn (Superman, trilogia Guardiões da Galáxia), Jeremy Slater (The Umbrella Academy) e Samy Burch (Segredos de Um Escândalo), Burch também escreve o longa enquanto Dave Green (Terra para Echo) assumiu a direção do híbrido de live-action e animação.

Existe um longo histórico de produções que misturam animação com live-action que vai desde Mary Poppins e Uma Cilada para Roger Rabbit até Looney Tunes: De Volta à Ação e os filmes do Sonic. Porém quando se fala em produções que misturam com personagens clássicos não é possível superar a sombra de Uma Cilada para Roger Rabbit.

Afinal, nenhum outro filme que conseguisser unir os dois mundos em uma boa história e que mantivesse em sua narrativa elementos de desenhos animados e do cinema live-action. E de alguma forma contrariando as expectativas, Coyote vs. Acme se tornou um dos melhores filmes de 2026.

Na trama, após inúmeros fracassos de Wile E. Coyote em eliminar seu arqui-inimigo Papa-Léguas com planos mirabolantes, ele decide então enfrentar quem ele acredita ser o verdadeiro responsável por seu fracasso, a corporação Acme. A aventura de Coyote o faz se unir ao preguiçoso advogado Kevin Avery (Will Forte) e juntos devem combater a ganância do capitalismo, uma conspiração contra desenhos animados e o rival de Kevin, Buddy Crane (John Cena).

O filme se apresenta como uma aventura cômica de fantasia no mundo jurídico de pequenos indivíduos contra uma poderosa empresa, nesse caso através da figura de Coyote que graças a um esforço de animação 2D e 3D é colocado na tela com o mesmo timing de comédia e de absurdo que nos lembramos nos clássicos curtas de Looney Tunes. E o mesmo pode ser falado de outros personagens do longa como Patolino, Frangolino e Papa-Léguas.

Na lógica do mundo da produção todos são habitantes dessa cidade, esse é um cenário onde jamais se questiona os desenhos como cinismo mas se abraça a fantasia, eles são parte da sociedade ocupando lugares em diversas classes sociais, essa integração entre o real e o animado é um dos trunfos na direção bem sólida de Dave Green que usa de um composição visual bem vibrante de tons quentes e frios, elabora sequências de ação e compreende como estruturar a montagem para alcançar batidas de comédia desses personagens.

Ao longo da história, a produção sabe como integrar participações especiais de lendas dos Looney Tunes enquanto desenvolve uma jornada da amizade entre Kevin Avery e Coyote e tentam desmantelar um grande conspiração ao redor dos desenhos animados e da Acme, o texto é ácido e esperto, assim como bem direto.

Mas o que surpreende bastante aqui é como consegue trazer paralelos com a realidade com atitudes de empresas e aos poucos sintetiza momentos emotivos sinceros e até mesmo reflete sobre a natureza resiliente de desenhos. Essa é uma história sobre não desistir e encontrar felicidade na sua vida complicada e catastrófica, não importa quantas vezes você perca diante do mundo.

E esses aspectos não funcionariam tão bem sem o elenco bem acertado, não só em vozes dos Looney Tunes como Eric Bauza e Candi Milo mas também na inegável energia e credibilidade que Will Forte e John Cena oferecem ao filme trazendo um tom muito específico de comédia, emoção e de performances corporais ao se integrarem aos desenhos animados, além do bom apoio em Lana Condor e Luis Guzmán.

A trilha sonora também contribui para a sensação mágica da trama como tons que evocam música clássica como também sintetizam o espírito de uma aventura cheia de mistério, mas com toques modernos em canções populares que soam bem naturais e empolgantes ao acompnhar os personagens animados.

Coyote vs. Acme traz um espírito que parecia ter se perdido no passado, essa produção não apenas acerta no estilo dos desenhos animados e em fazer um dos melhores híbridos de live-action e animação, mas traz uma engenhosa e sutil sátira política que coloca o formato de Looney Tunes em choque com filmes de tribunais.

Essa é uma comédia inventiva de modesto orçamento similar ao que víamos nos anos 2000s onde cada cena é muito bem filmada e com uma história com grande valor em sua mensagem para o mundo.

Uma produção que merece ser vista e revisitada pelos próximos anos, afinal nos recorda que esses personagens tornam o cinema muito mais mágico, criativo e emocionante.

Otávio Renault
Nascido em São Joaquim da Barra interior de São Paulo, sou um escritor, cineasta e autor na Cine Mundo, um cinéfilo fã de Spielberg e Guillermo del Toro, viciado em séries, leitor de quadrinhos/mangás e entusiasta de animações.