Crítica: O Diabo Veste Prada 2

Valeu a pena esperar vinte anos para reencontrar esses personagens. O Diabo Veste Prada se tornou um clássico do cinema e atravessou diferentes espaços do cotidiano, da escola ao ambiente de trabalho, frequentemente associado a reflexões sobre ambição, ética e identidade profissional. Durante anos, muito se falou sobre uma possível continuação, o que gerou expectativa acompanhada de receio, já que sequências nem sempre sustentam a força do original. 

Agora, duas décadas depois, essa história ganha um novo capítulo. Miranda (Meryl Streep) precisa lidar com a queda de receita e se surpreende com a contratação de Andy (Anne Hathaway), que, após uma demissão, é chamada para gerenciar a crise na revista Runway. Enquanto isso, Emily (Emily Blunt) agora atua como executiva de publicidade de um grupo de luxo, o tipo de cliente que Miranda precisa conquistar patrocínio para manter a revista no mercado.

Um dos acertos do filme está na forma como constrói sua atmosfera para trazer de volta personagens já marcados no imaginário do público. Há um cuidado em distribuir momentos para Andy (Hathaway), Miranda  (Streep) e Emily (Blunt), que faz com que cada uma retome seu espaço sem depender apenas da memória afetiva do primeiro filme. As três sustentam bem suas presenças e estabelecem relações que movem a narrativa. No caso de Andy, seu retorno ao lado de Miranda acontece a partir do gerenciamento de uma crise, o que tensiona seu percurso profissional e amplia a discussão sobre o jornalismo.

A partir desse contexto, a crise também serve como ponto de partida para uma leitura sobre o cenário atual da comunicação. O episódio envolvendo Miranda ganha rápida repercussão e se desdobra em múltiplas interpretações na internet. Ao assumir a condução desse momento, Andy direciona o foco para uma discussão mais ampla sobre a prática jornalística hoje, suas possibilidades de atuação e os desafios impostos por um ambiente cada vez mais fragmentado. 

Emily (Emily Blunt) deixa de integrar a redação e passa a atuar em uma grande marca de luxo, o que amplia o alcance do enredo para além do ambiente da revista e introduz relações mais diretas entre conteúdo e mercado. O filme apresenta esses processos com clareza, especialmente na condução da crise, ao evidenciar desde a definição do público até as estratégias utilizadas para conter seus desdobramentos. Questões como posicionamento, patrocínio e tomada de decisão surgem de forma estruturada, sem simplificações excessivas, permitindo que mesmo quem não tem familiaridade com esse meio compreenda sua dinâmica. Nesse sentido, o filme se aproxima de um estudo prático sobre comunicação e gestão de imagem, mantendo diálogo com profissionais da área sem se fechar para o público em geral. 

A moda permanece como eixo central do filme, agora atravessada por um olhar mais atento à diversidade, visível sobretudo nas personagens que orbitam o núcleo principal. Sem alterar a base formada por Miranda, Andy, Emily e Nigel (Stanley Tucci), o longa amplia esse universo ao incluir perfis distintos, com a presença de Lucy Liu, Simone Ashley e Caleb Hearon

Essa atualização também aparece na forma como Miranda tenta se ajustar às transformações do mercado, reconhecendo a necessidade de renovação da revista e de uma moda mais acessível. Ao mesmo tempo, o filme incorpora elementos contemporâneos como o uso constante do celular, a presença da inteligência artificial e mudanças nas relações de trabalho. Também vale ressaltar a convivência entre diferentes gerações, como a geração Z, os millennials e a geração Alfa, além do contraste entre tradição e renovação. 

O filme preserva uma essência muito associada às produções dos anos 2000, ao mesmo tempo em que se apresenta com uma leitura atual. Existe um tom nostálgico que dialoga com a memória do primeiro longa, sem deixar de construir algo próprio. Emily demonstra um crescimento mais evidente, sustentado por uma busca constante por reconhecimento e validação, o que torna sua construção mais definida e próxima de experiências reais. Ao mesmo tempo, mantém um humor preciso que funciona como alívio cômico dentro do filme. 

Andy segue fiel aos seus valores e princípios, o que preserva a identidade da personagem mesmo após o tempo decorrido. Já Miranda permanece como uma figura emblemática, marcada por decisões orientadas pelo trabalho e pelas escolhas que fez ao longo da carreira. 

Os looks reforçam a identidade das personagens com escolhas ligadas a casas como Chanel, Dior e Prada, e a trilha sonora acompanha esse cuidado. O momento em que toca a música da Madonna é realmente marcante, chega a emocionar. A trilha é bem aplicada, e a presença da Lady Gaga também funciona muito bem, já que ela é uma artista emblemática, com forte relação com a moda. Os desfiles têm um tempo bem dosado, sem exageros. 

O filme é incrível, só tenho coisas boas a dizer, fiquei muito feliz e positivamente surpresa, principalmente por poder viver esse momento de assistir algo tão especial. Quando vi o primeiro, fiquei encantada, amo a Anne Hathaway desde O Diário de uma Princesa (2001), e agora é muito potente ver as três atrizes, que seguiram caminhos tão sólidos em suas carreiras, retomando esses personagens com a mesma força, mas mais maduras, tanto como profissionais quanto como mulheres.

Para quem gosta de moda e/ou atua na comunicação, claro que existe uma identificação imediata, mas o filme vai além desse nicho, ele conversa com todo mundo e traz reflexões, seja a partir de atitudes negativas que fazem pensar, seja por exemplos positivos que podem ser levados até para o ambiente de trabalho. Com certeza vou assistir de novo, já entrou para a minha lista de favoritos do ano e é um filme que fica com você.