Desde 2013, acompanho a franquia Invocação do Mal, dirigida por James Wan. Ele esteve à frente do primeiro filme, e mesmo nos filmes seguintes, que tiveram outros diretores, seu estilo permaneceu perceptível, permitindo ao público acompanhar a evolução do terror e o uso de jump scares. O primeiro filme chamou atenção ao misturar investigações paranormais reais com suspense, apresentando os protagonistas, Ed e Lorraine Warren. O segundo filme manteve a fórmula, ampliando a escala das histórias e mostrando um pouco mais da vida pessoal dos Warrens. O terceiro trouxe novas abordagens, como investigações envolvendo exorcismos e tribunais, apresentando locais diferentes e desenvolvendo a mitologia da franquia.
A partir do momento em que perceberam o quão rentável poderia ser esse terror, os produtores viram uma oportunidade de expandir o universo. Inspirados pela moda dos multiversos, como a Marvel e a DC, decidiram criar um universo compartilhado dentro do próprio Invocação do Mal. Surgiram então os filmes derivados, como Annabelle e A Freira, que apresentaram personagens e tramas secundárias, estabelecendo a franquia como referência tanto em sustos quanto em estratégias de construção de universo cinematográfico.
Além dos filmes citados, houve projetos que ficaram no papel, como O Homem Torto, que poderiam ampliar ainda mais o universo. O terceiro filme da saga Annabelle, por exemplo, apresentou diversos personagens com potencial para novos filmes, mas nenhum deles foi desenvolvido em produções futuras. Essa fase mostra como a franquia buscou oportunidades comerciais e narrativas, mesmo que nem todas tenham se concretizado. Com o lançamento de Invocação do Mal 4, o ciclo do selo Invocação do Mal chega ao fim.
O Último Ritual
Neste último capítulo, os Warren enfrentam mais um caso aterrorizante, desta vez envolvendo entidades misteriosas que desafiam sua experiência. Ed e Lorraine se veem obrigados a encarar seus maiores medos, colocando suas vidas em risco em uma batalha final contra forças malignas. O filme promete encerrar o enredo dos investigadores com suspense e momentos de tensão, consolidando a franquia como uma das mais populares do gênero. Além dos sustos, o longa também aborda o relacionamento do casal, mostrando sua força emocional diante das adversidades.
Vera Farmiga e Patrick Wilson retornam como Lorraine e Ed Warren, trazendo consistência e naturalidade aos personagens. O desempenho dos dois sublinha a relação do casal, tornando os momentos de tensão e conflito mais envolventes e reforçando a credibilidade da narrativa.
Já os Warren da vida real, embora tenham colaborado com policiais e religiosos em diversos casos, sempre dividiram opiniões sobre seus métodos e crenças. O quarto filme retoma essa dualidade, mostrando como o relacionamento do casal e suas escolhas influenciam o trabalho investigativo e também a vida pessoal.
Entre Casos reais e conexões emocionais
Em Invocação do Mal 4, o ponto de partida é o caso da família Smurl, um dos mais conhecidos na trajetória dos Warren. O filme apresenta uma casa marcada por fenômenos sobrenaturais e uma família numerosa tentando lidar com a presença do mal. No entanto, a quantidade de personagens acaba diluindo a força da narrativa. Duas adolescentes assumem o protagonismo, enquanto as crianças menores, os avós e até o pai têm pouco espaço, o que torna a conexão com o público menos intensa.
Nos filmes anteriores, essa empatia era um dos grandes diferenciais. No primeiro e no segundo, o envolvimento com o drama das famílias era imediato: víamos claramente os medos, as fragilidades e a luta de cada membro. Já no terceiro, ainda que o foco fosse mais nos Warren do que na família, havia espaço para compreender o tormento vivido pelo garoto possuído, criando proximidade emocional.
No quarto capítulo, essa dimensão familiar perde impacto. Embora as duas adolescentes tenham bons momentos, a dispersão entre tantos personagens enfraquece o drama coletivo. O resultado é um filme que, apesar de assustar, não alcança o mesmo nível de empatia com a família central que os casos anteriores conseguiram construir.
Mas Invocação do Mal é bom?
Uma das perguntas mais comuns sobre a franquia é se Invocação do Mal é um bom filme de terror. Antes de responder, é importante entender a proposta da obra. O filme tem apelo de massa e utiliza recursos como jumpscares de forma consistente. Diferentemente do terror mais explícito, como o slasher ou o gore, ele aproxima o público ao mostrar famílias em perigo e ao criar uma narrativa em que o bem enfrenta o mal de forma direta. Nesse contexto, Ed e Lorraine Warren assumem um papel quase heroico, resolvendo mistérios e protegendo as famílias, o que mantém o vínculo emocional com o espectador.
A construção narrativa segue uma lógica de escalada do conflito: o mal se manifesta de forma sutil no início e vai crescendo até o confronto final. Esse formato mantém o público interessado pelo suspense e pela trajetória das famílias e do casal Warren. Tecnicamente, podemos relacionar a narrativa a elementos do arquétipo do herói, em que os protagonistas enfrentam obstáculos crescentes até o clímax. Essa escolha narrativa é responsável por gerar empatia, garantir identificação com os personagens e tornar a franquia um modelo de terror popular que equilibra suspense, drama e confronto direto com o mal.
Por que Invocação do Mal 4 mantém seu público fiel?
O que explica o público fiel da franquia é a forma como as histórias são construídas. Invocação do Mal 4 se dedica a mostrar a trajetória de Ed e Lorraine Warren, dando um fechamento para o casal e permitindo que o espectador reflita sobre seu legado. Mesmo sendo figuras controversas, o filme apresenta os fatos de maneira neutra, convidando o público a usar seu senso crítico para interpretar suas ações.
Além do foco no casal, o longa se sobressai pela ambientação detalhada, que recria com cuidado a época em que os casos ocorreram, incluindo cenários, objetos e clima visual que reforçam a imersão. Outro ponto é a escolha dos casos: são casos polêmicos que despertam curiosidade, tanto para quem viveu aquela época quanto para quem se interessa pelo universo sobrenatural. O filme também consegue equilibrar suspense, drama familiar e terror, mantendo a ligação com o público, ainda que o foco seja maior nos Warren do que na família central, como já acontecia nos filmes anteriores.
Por fim, há a homenagem à trajetória da franquia, com elementos como ambientação, direção eficiente e personagens centrais bem trabalhados, mostrando cuidado com a experiência do espectador. Isso conclui a história do casal e da franquia, marcando um fechamento para essa fase da saga.


















